Há muitas perguntas relevantes para a sobrevivência e a melhoria das condições de vida da humanidade no nosso planeta para as quais vale a pena procurar, com afinco, uma resposta. Neste blogue só nos ocuparemos de duas delas, não porque as outras perguntas não sejam relevantes, mas porque essas duas (que formularei mais abaixo) são as mais negligenciadas de todas, apesar da sua imensa importância. 

De resto, sabemos já a resposta a muitas das outras perguntas. Algumas delas baseiam-se em informações não só disponíveis publicamente, mas também acessíveis na W3 (WWW). Outras estão disponíveis graças ao trabalho aturado e rigoroso de um pequeno mas incansável número de investigadores. Eis uma lista exemplificativa:

— Sabemos qual é, e como funciona, o modo de produção de bens e serviços que reina,  supremo, em todo o planeta: é o modo capitalista de produção1.

— Sabemos também quais são as condições actuais de produção e de troca desse ubíquo modo de produção e como está estruturada a rede de instituições financeiras, políticas, militares, policiais, conviviais e comunicacionais ao seu serviço.

Os donos do planeta

— Sabemos, por exemplo, quantas são e quais são as firmas capitalistas transnacionais que controlam o grosso da indústria, da agricultura, dos serviços e do comércio à escala mundial. Sabemos que são cerca de 43.000 firmas com intervenção em 113 países2.

—  Sabemos que 1.389 dessas 43.000 firmas transnacionais (FTN, para abreviar) formam o núcleo central da economia global. Isto, porque estas 1.389 FNT, embora representem 20% das receitas operacionais globais do seu grupo, possuem colectivamente, através das acções que controlam, as maiores firmas “ficha azul”3 e as maiores firmas das indústrias transformadoras (a chamada “economia real”), as quais representam 60% das receitas globais.

— Sabemos que cada uma dessas 1.389 FTN tem ligações a duas ou mais outras firmas. Em média, cada FTN deste núcleo central tem 20 ligações com outras firmas. O gráfico 1 representa as interconexões entre essas 1.389 FTN. As firmas superconectadas são representadas pelos botões vermelhos, as firmas muito conectadas pelos botões amarelos. O tamanho do botão representa a receita maior ou menor da firma em causa.

Gráfico 1. Rede de interconexões das 1389 FTN mais importantes do mundo. Fonte: “The Network of Global Corporate Control”, PLoS ONE (v. nota 2 do presente texto)

— Sabemos também que  estas 1.389 firmas transnacionais são dominadas, por sua vez, por um núcleo mais restrito de 147 firmas transnacionais ainda mais interconectadas e mais poderosas. Estas 147 firmas transnacionais formam uma espécie de “superentidade”, visto que oferecem a particularidade da estrutura accionista de cada uma delas ser controlada total ou parcialmente pelos outros membros deste grupo restrito. Esta “superentidade” representa menos de 0,5% das 43.000 firmas transnacionais mais interconectadas. No entanto, é ela que controla cerca de 40% da riqueza mundial gerada neste conjunto graças à altíssima densidade das suas interconexões financeiras. O gráfico 2 é um exemplo parcial (porque diz respeito apenas a 18 dessas 147 FTN), mas muito expressivo, dessas interconexões4.

Gráfico 2. Rede de interconexões entre 18 das principais FTN. Fonte: “The Network of Global Corporate Control”, PLoS ONE (v. nota 2 do presente texto)

    — Sabemos também quantas são e quais são, entre essas 147 firmas transnacionais, as maiores de todas, que dominam e se sobrepõem a todas as outras. Se nos referirmos ao país onde têm a sua casa-mãe (administração central) e ao montante em dólares americanos ($) dos activos que gerem, a sua lista, por ordem de grandeza, era a seguinte, em 20175:

  1. Black Rock (EUA): 5,4 biliões $
  2. Vanguard Group (EUA): 4,4 biliões $
  3. P. Morgan Chase Bank (EUA): 3, 8 biliões $
  4. Allianz SE [PIMCO] (Alemanha/EUA): 3,3 biliões $
  5. UBS (Suíça): 2,8 biliões $
  6. Bank of America Merry Linch (EUA): 2,5 biliões $
  7. Barclays plc (Reino Unido): 2,5 biliões $
  8. State Street Global Advisors (EUA): 2,4 biliões $
  9. Fidelity Investments [FMR] (EUA): 2,1 biliões $
  10. Bank of New York Mellon (EUA): 1,7 bilião $
  11. AXA Group (França): 1,5 bilião $
  12. Capital Group (EUA): 1,4 bilião $
  13. Goldman Sachs Group (EUA):1,4 bilião $
  14. Crédit Suisse (Suíça): 1,3 bilião $
  15. Prudential Financial (EUA): 1,3 bilião $
  16. Morgan, Stanley & Co (EUA): 1,3 bilião $
  17. Amundi/Crédit Agricole (França): 1,1 bilião $

Estas 17 firmas, bancos e firmas financeiras, controlam um total de 41,1 biliões de dólares americanos (estimativa que peca por defeito) ou, equivalentemente, 37,4 biliões de euros6. Como se pode ver pela lista, cada uma destas firmas possui mais de 1 bilião de dólares em carteira, 5 possuem mais de 2 biliões, 3 mais de 3 biliões, e uma chega a atingir 5,4 biliões.

Estas 17 firmas são os gigantes financeiros do capitalismo mundial. Recentemente, mais três firmas financeiras transnacionais adquiriram também o estatuto de “gigantes” por controlarem uma carteira de investimentos superior a 1 bilião de dólares americanos. Os novos gigantes são o BNP Paribas de França (com 1,2 biliões $ sob controlo), o Northerm Trust de Chicago, EUA (com 1,1 bilião $) e a Wellington Management Company de Boston, EUA (com 1bilião $). Tal como os seus congéneres da lista supra-referida, também estes novos gigantes estão interconectados entre si e com os outros gigantes7.

Os capitais sob o controlo destas firmas vêm nominalmente de muitos milhares de multimilionários, de muitas dezenas de milhares de firmas não financeiras (industriais, comerciais, agrícolas, de serviços) e de muitos fundos de pensões que delegam nestas gigantescas firmas de gestão de investimentos a tarefa de investirem o seu dinheiro no mercado com a expectativa de conseguirem obter em retorno uma taxa de lucro bem acima da média para o seu capital ‒ ou seja, de 3 a 10%.

— Sabemos que um grupo muito pequeno, de apenas 737 accionistas (0,61% dos accionistas), concentra nas suas mãos o controlo de 80% de todas as firmas transnacionais no mundo. A desigualdade no controlo entre as firmas é 10 vezes maior do que a desigualdade na distribuição da riqueza no mundo, a qual já é em si brutal 8. Mais ainda, sabemos que 50 accionistas (muitos deles são firmas financeiras) controlam 39,78% de todas as FTN. Ou seja, 80% das FTN são controladas por 737 accionistas, mas metade delas, 40%, são controladas por apenas 50 accionistas.

— Sabemos qual é a forma canónica como o capital é personificado e qual é a estrutura da sua estratificação. Mais concretamente, sabemos que o capital, na sua forma canónica (aquela que vigora nos países industrial e tecnologicamente mais desenvolvidos), é personificado por gente de uma classe social composta por várias camadas e que as camadas superiores (adiante designadas por letras maiúsculas), as mais endinheiradas, estão interconectadas de muitas maneiras:

(A) os donos das firmas que possuem e controlam as maiores empresas (ou seja, os grandes accionistas individuais, pessoas de carne e osso, que são donos das firmas que possuem e controlam as instituições onde se combinam, de forma organizada, os meios colectivos de produção ou de troca e a força de trabalho humano necessária para os afeiçoar, produzir e fazer funcionar adequadamente);

(B) os administradores e directores em quem os donos das firmas delegam amiúde a tarefa de as gerirem no dia-a-dia e de as fazerem crescer;

(C) os facilitadores que planeiam, formulam, aprovam, executam ou mandam executar as leis e políticas públicas necessárias à promoção dos interesses das duas camadas anteriores;

(D) os justificadores e propagandistas que fazem a publicidade das mercadorias e a apologia das alegadas virtudes e benesses do sistema capitalista mundial por meio da elaboração e defesa de doutrinas pseudocientíficas (como, por exemplo, o darwinismo social, a teoria económica do valor subjectivo, a sociobiologia, a psicologia evolucionista) e de um uso judicioso da panóplia de técnicas desenvolvida pela “engenharia do consentimento”9 (propaganda, relações públicas, publicidade enganosa, dissimulação dos factos, distorção da verdade, notícias forjadas, desinformação, difamação, etc.);

(E) os protectores das quatro camadas anteriores, que se encarregam de garantir a sua segurança colectiva recorrendo, sempre que necessário e possível, à ultima ratio: a ameaça do uso e o uso efectivo da violência armada, seja pelo Estado ‒ entenda-se, pelas instituições especiais de coerção, coacção e repressão que são detentoras do monopólio legal do uso das armas de guerra (forças policiais e militares) ‒ seja, quando o Estado se mostra demasiadamente cauteloso ou relutante, pelas firmas de segurança privada e pelas companhias militares privadas (vulgo, companhias de mercenários).

— Sabemos quantos são e quem são os indivíduos que constituem a “elite”  plutocrática da camada (A), o grupo dos capitalistas propriamente ditos. Basta-nos consultar as páginas da revista Forbes para sabermos os nomes dos 2057 capitalistas mais ricos do mundo. Sabemos qual é o montante aproximado das suas fortunas individuais, sempre superior a mil milhões de dólares americanos, porque só os detentores de fortunas dessa ordem de grandeza (aqui designados por “multimilionários”) é que têm lugar nessa lista10. A lista dos 30 capitalistas mais ricos do mundo em 2018 é a seguinte (mM = mil milhões; $= dólares americanos):

        Nome                                      Fortuna          Idade             Fonte                          País

1º  Jeff Bezos                               $131  mM            55              Amazon                        EUA

2º  Bill Gates                                $96,5 mM           63              Microsoft                      EUA

3º  Warren Buffett                       $82,5 mM           88             Berkshire Hathaway    EUA

4º  Bernard Arnault                    $76    mM           70              LVMH                          França

5º  Carlos Slim Helu                    $64    mM           79             Telecom                        México

6º  Amancio Ortega                     $62,7 mM           83              Zara                            Espanha

7º  Larry Ellison                           $62,5 mM          74              informática                  EUA

8º  Mark Zuckerberg                   $62,3 mM          34              Facebook                     EUA

9º  Michael Bloomberg                 $55,5 mM         77              Bloomberg LP             EUA

10º Larry Page                              $50,8 mM         46              Google                          EUA

11º Charles Koch                          $50,5 mM         83              Koch Industries          EUA

11º David Koch                              $50,5 mM        78              Koch Industries          EUA

13º Mukesh Ambani                      $50    mM        61              Petróleo e gás             Índia

14º Sergey Brin                              $49,8 mM        45              Google                         EUA

15º F. Bettencourt Meyers             $49,3 mM        65              L’Oréal                      França

16º  Jim Walton                              $44,6 mM        70              Walmart                     EUA

17º  Alice Walton                            $44,4 mM        69              Walmart                     EUA

18º  Rob Walton                             $44,3 mM        74              Walmart                     EUA

19º  Steve Ballmer                          $41,2 mM        63              Microsoft                   EUA

20º  Ma Huateng                            $38,8 mM        47               internet                      EUA

21º  Jack Ma                                   $37,3 mM        54               cibercomércio           EUA

22º  Hui Ka Yan                              $36,2 mM       60                imobiliário                EUA

23º  B. Heister & K. Albrecht Jr.   $36,1 mM        ?                supermercados       Alemanha

24º  Sheldon Adelson                      $35,1 mM       85               casinos                        EUA

25º  Michael Dell                             $34.3 mM       54               Dell computers          EUA

26º  Phil Knight                               $33,4 mM       81               Nike                            EUA

27º  David Thomson                        $32,5 mM       61              comunicação social   Canadá

28º  Li Ka-shing                               $31,7 mM       90              diversos                     Hong Kong

29º  Lee Shau Kee                            $30,1 mM       91              imobiliário                Hong Kong

30º  François Pinault                       $29,7 mM       82              bens de luxo               França

 — Sabemos quantos são e quem são os indivíduos que constituem a “elite” tecnocrática da camada (B), o grupo dos que gerem as firmas transnacionais gigantes. São apenas 197 indivíduos, na sua maioria do sexo masculino e americanos (logo seguidos por subgrupos menores de britânicos, franceses, alemães e suíços), que possuem diplomas universitários muito semelhantes (maioritariamente MBA’s em gestão), que são membros das mesmas organizações nacionais e transnacionais (como a US Business Roundtable, o Council on Foreign Relations, a Comissão Trilateral, o Grupo de Bilderberg), que vão às mesmas reuniões (como o Fórum Económico Mundial de Davos, as International Monetary Conferences) e que se conhecem todos uns aos outros.

Poderíamos prosseguir este exame no que diz respeito às outras camadas ‒ (C), (D) e (E) ‒ que constituem a estratificação ou segmentação da classe capitalista global e chegaríamos a resultados semelhantes11.

— Por exemplo, sabemos quais são e como actuam as principais instituições transnacionais, quer interestatais quer privadas, da camada C, algumas das quais [assinaladas a azul] são praticamente desconhecidas do grande público consumidor de radiotelevisão e radiodifusão, e outras, como as agências de notação financeira, eram praticamente desconhecidas do grande público até à eclosão da crise de 2008 e das subsequentes políticas ditas de “austeridade,” quando se tornaram tristemente famosas pelo funesto papel que desempenharam tanto naquela como nestas.  

# São a International Monetary Conferences (a mais antiga de todas), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o G7, o G20, a Organização Mundial do Comércio, o Banco de Pagamentos Internacionais (em Inglês, Bank for International Settlements [BIS]) ‒ e os seus numerosos comités especializados, como, por exemplo, o Committee on the Global Financial System ‒, o Conselho de Estabilidade Financeira (em Inglês, Financial Stability Board), o Banco Central Europeu, o Fórum Económico Mundial, a Comissão Trilateral, o Grupo de Bilderberg, o G30 (Grupo dos 30), o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (em Inglês, European Bank for Reconstruction and Development), o Systemic Risk Council, a European Round Table of Industrialists, etc.

Num outro plano, mais mediático, pertencem também à camada C as agências de notação financeira (Ingl. credit rating agencies) para efeitos de classificação do risco inerente aos  investimentos capitalistas, como a Standard & Poor’s (sediada em Nova Iorque, com escritórios em 28 países e mais de 10.000 trabalhadores), a Moody’s (sediada em Nova Iorque, com escritórios em 44 países e 13.200 trabalhadores), e a Fitch Group (sediada em Nova Iorque e Londres, com escritórios em 33 países e 4.500 trabalhadores), conhecidas como as “três grandes” porque controlam cerca de 95% do mercado das notações financeiras.

                                                O Conselho de Administração do FMI (Fundo Monetário Internacional)

— Sabemos quais são e como actuam (X) as principais firmas transnacionais de Relações Públicas e Propaganda (RPP) e (Y) as principais firmas transnacionais de comunicação social e entretimento em que operam os justificadores e propagandistas da camada (D).

# São conglomerados como, por exemplo, na categoria X,  o WWP Group (um conglomerado de 125 firmas de RPP em 112 países, com 190.000 empregados e uma receita de 21,1 mM $), o Omnicom Group (um conglomerado de firmas de RPP, com 74.000 empregados em 200 agências, com uma receita de 15, 2 mM $), e o Interpublic Group (com 49.700 empregados em 88 agências, com uma receita de 7.9 mM $).

# São, na categoria Y, firmas de comunicação social e de entretimento como, por exemplo, a Comcast Corporation (que controla redes de televisão, como a NBC e a Telemundo, produtoras de cinema e vídeo, como a Universal  Pictures,  e serviços de internet, com uma receita de 80,4 mM $), a Time Warner (que opera em 150 países, emprega 25.000 pessoas, controla a HBO, a Warner Bros, a Turner Broadcasting, a Cinemax, e tem uma receita de 28,1 mM $) e a 21th Century Fox (que controla a 21th Century Fox Films, as estações de televisão Fox Broadcasting Company e Star TV, a revista e rede de televisão National Geographic, e tem uma receita de 27,2 mM $) cujo accionista principal, Rupert Murdoch, é também dono de 800 outras firmas em 50 países12.

— Sabemos quais são e como actuam as principais organizações transnacionais que se encarregam da protecção e da segurança colectiva das instituições do capitalismo global.

# São instituições militares estatais e transestatais  com sede nos países mais poderosos, como, por exemplo,  o Departamento de Defesa dos EUA, o US Special Operations Command  (SOCOM), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou NATO na sigla inglesa, etc.

# São agências estatais de espionagem, colecta sigilosa de informações, vigilância, interceptação, infiltração e destruição de “alvos”, como, por exemplo,  a CIA, a NSA, a NRO, a NGA nos EUA; o MI6,  o MI5 no Reino Unido; a DPSD, a DGSE na França, etc.

# São as grandes firmas que controlam a produção de armas e outro material de guerra, como, por exemplo, a Lockheed Martin Corporation, a Boeing Company, a Raytheon, a Northern Grumman Corporation, a General Dynamics Corporation, nos EUA; a Thales, a Safran, a CEA, a Dassault, a Daher, a Nexter na França; a British Aerospace Electronics (BAE) Systems, a Rolls-Royce, a Babcock International Group, a GKN, a Serco, a Meggitt no Reino Unido; a Rhein-Metall, a ThyssenKrupp, a Krauss-Maffei Wegmann na Alemanha; a Leonardo/Finnmecanica, a Fincatieri  na Itália; a Airbus e a MBDA no Reino Unido e na França; a Mitusbishi Heavy Industries, a Kawasaki Heavy Industries, a Fujitsu, a IHI Corp., a NEC Corp., no Japão, etc.

# São as grandes firmas de segurança privada (como a G4S, a Securitas AB, a ADT, a AlliedBarton, a DynCorp, a Gardaworld, etc.) e companhias privadas de mercenários militares (como a Academi [ex-Blackwater], a FDG Corp., a MRPI, a Aegis Defence Services, a Erynis International, etc.).

— Sabemos que a soma dos indivíduos da camada (C), da camada  (D) e da camada (E) que formam a “elite” dos facilitadores, dos justificadores  e dos protectores da classe capitalista transnacional à escala global não excede as quatro centenas de indivíduos13. Estes indivíduos, juntamente com os da “elite” tecnocrática (camada B) ‒ ou seja, cerca de 600 indivíduos ao todo ‒ são uma parte importante da chamada “superclasse”, as 6600 ou 7000 pessoas (incluindo os 2.057 multimilionários da lista da Forbes) que constituem a cúpula da classe capitalista transnacional14.

O poder e a influência desta “superclasse” ultrapassam os de quaisquer governos. Basta termos em mente que só os 2.057 multimilionários mais ricos do mundo possuem em conjunto a fabulosa fortuna de 8.700 biliões de dólares americanos. As decisões de investimento desta “superclasse”, os capitais que movimentam, os lucros que auferem, as instituições que controlam, as influências que movem, afectam os empregos, os rendimentos, as condições de habitação, os cuidados de saúde, a escolaridade, a segurança social, os divertimentos de centenas de milhões de trabalhadores assalariados e de trabalhadores por conta própria (incluindo agricultores parcelares) no mundo inteiro.

Ninguém melhor do que este grupo encarna a classe capitalista transnacional que controla e rege a vida socioeconómica, sociopolítica e sociocultural da grande maioria dos seres humanos à escala planetária.

A força versus a opinião

 Estes 7.000 indivíduos da “superclasse” constituem 0,0001 % (a milionésima parte) da população mundial. Todos juntos não chegariam para encher o Pavilhão Atlântico em Lisboa, que pode abrigar 12.500 pessoas sentadas. Esta pequeníssima minoria constitui o núcleo central do grupo de multimilionários, também ele exíguo (0,8% da população mundial), que controla 48% da riqueza mundial.

No entanto, esta minúscula oligarquia consegue comandar, em grande medida, os destinos de mais de 7.500 milhões de pessoas, não obstante a tremenda instabilidade do seu modo de produção (o modo capitalista de produção, com as suas proverbiais e recorrentes contracções, recessões e depressões); não obstante as guerras incessantes e com armas cada vez mais mortíferas que promove; não obstante as enormes desigualdades de riqueza que gera; não obstante a alarmante degradação ambiental que provoca.

Como explicar que isso seja possível apesar de estarem reunidas, pelo menos nos países capitalistas mais desenvolvidos — na maior parte da Europa (incluindo a parte europeia da Federação Russa), na América do Norte (EUA e Canadá), na Ásia (Japão, Coreia do Sul, China, Taiwan), na Australásia (Austrália, Nova Zelândia) — quase todas as condições sociais objectivas (industriais, científicas, tecnológicas, culturais) para a humanidade se auto-organizar e se auto-instituir socialmente de um modo que ponha termo a todos esses flagelos?

Esta é uma pergunta fundamental que raramente ou nunca é feita, mal-grado a sua importância. Não precisamos, porém, de procurar com afinco a resposta a esta pergunta crucial. Ela foi-nos dada, nas suas linhas gerais, em 1741, pelo  filósofo escocês David Hume (1711-1776), embora sejam poucos os que a recordam:

Nada parece mais surpreendente aos olhos daqueles que consideram os assuntos humanos de um ponto de vista filosófico do que a facilidade com que os muitos são governados pelos poucos; e a implícita submissão com a qual os homens renunciam aos seus próprios sentimentos e às suas próprias paixões em benefício dos sentimentos e das paixões dos seus governantes. Quando investigamos os meios pelos quais este prodígio é efectuado descobrimos que, como a Força está sempre do lado dos governados, os governantes não têm nada mais senão a opinião para os apoiar. Por conseguinte, é tão-somente na opinião que se baseia o governo; e esta máxima aplica-se tanto aos governos mais despóticos e militares como aos governos mais livres e populares. O sultão do Egipto ou o imperador de Roma podem conduzir os seus inofensivos súbditos agindo contra os seus sentimentos e as suas inclinações, como bestas quadradas. Mas um e outro têm, pelo menos, de dirigir os seus mamelucos ou as suas guardas pretorianas por meio da sua opinião, como homens 15.

Há boas razões para pensar que este ensinamento de Hume só foi integralmente assimilado, a partir da revolução industrial, pela classe capitalista e, muito especialmente, pela sua actual “elite” dirigente, a chamada “superclasse.”

Um exemplo entre mil. A facilidade com que a população dos EUA aceitou a invasão do Iraque, em 2003, por tropas americanas e engoliu o seu pretexto (a mentira, cozinhada nas mais altas esferas do Estado americano, de que o regime de Sadam Hussein possuía “armas de destruição maciça” e de que tinha culpas na destruição da torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque) foi o resultado de um esforço concertado que envolveu o Office of Global Communications da Casa Branca, a CIA,  o Departamento de Defesa dos EUA (também conhecido por Pentágono) ‒ em particular através de estruturas como a Information Operations Task Force, uma unidade encarregada de moldar a percepção do público sobre o Iraque, e a Joint Combat Camera Program, uma unidade militar de cineastas e fotógrafos ‒, firmas especializadas de Relações Públicas e Propaganda, como o Rendon Group, grandes  firmas de comunicação social, como a CNN, a CBS, a MSNBC, a ABC, a Fox News,  e grandes jornais de referência, como o New York Times e o Washington Post 16.

É através desta sofisticada capacidade para fabricar a opinião que mais lhe convém que seja acreditada e para fazer dela o “senso comum” que a classe capitalista consegue dominar e dirigir o resto da humanidade, e, muito em particular, a classe que ela própria criou para se expandir pelo planeta inteiro e que é a fonte principal dos seus rendimentos e do seu património: a classe dos trabalhadores assalariados, a classe dos proletários modernos 17.

O elemento fundamental da opinião dominante são as ideias de que (i) não existe, nem poderia existir, um modo de produção alternativo e superior ao modo capitalista de produção 18 e de que (ii) não existe, nem poderia existir,  um sistema político alternativo e superior à aristocracia electiva (mais conhecida por “governo representativo”), sobretudo quando toma a forma de uma plutocracia ou de uma oligarquia liberal (comummente designada pelo oximoro “democracia representativa” ou pelo oximoro “democracia eleitoral”).  Ambas as ideias são falsas, como os artigos publicados neste blogue se encarregarão de demonstrar.

O movimento cooperativo e a emancipação dos trabalhadores

O que falta às classes trabalhadoras assalariadas dos diferentes países não é pois, seguramente, a força dos números, que está esmagadoramente do seu lado. Também não é a capacidade de protesto e de luta contra as diferentes formas de exploração e de opressão das classes capitalistas tradicionais e da sua mais recente cúpula transnacional americana, europeia e asiática. Durante os dois séculos e meio que o moderno modo capitalista de produção leva de vida, as classes proletárias já travaram todo o tipo de formas de luta, algumas das quais ‒ como, por exemplo, as greves com ocupação do local de trabalho e as greves de zelo ‒ são inéditas na história das lutas emancipadoras da humanidade.

Mais ainda: no decurso desses dois séculos e meio, o proletariado foi também capaz de descobrir o caminho para a sua emancipação económica sem precisar de nenhuma autoproclamada “elite” (mutato nomine, “vanguarda”) partidária para o ter conseguido fazer.

Falamos do movimento cooperativo, especialmente das fábricas cooperativas levantadas do chão pelo esforço de algumas “mãos” arrojadas, sem qualquer auxílio. O valor destas grandes experimentações sociais [Inglês, “social experiments”] dispensa sobreadjectivação. Por obras, em vez de argumentos, elas mostraram que a produção em larga escala e de acordo com as exigências da ciência moderna, pode ser prosseguida sem uma classe de patrões empregando uma classe de “braços”; mostraram que, para darem fruto, os meios de trabalho não precisam de ser monopolizados como instrumento de domínio sobre, e de extorsão contra, o próprio trabalhador e que, tal como o trabalho escravo e o trabalho servil, o trabalho assalariado não é senão uma forma transitória e inferior destinada a desaparecer perante o trabalho associado que desenvolve a sua labuta  com mãos solícitas, mente alerta e coração alegre. Na Inglaterra, as sementes do sistema cooperativo foram semeadas por Robert Owen. As experimentações realizadas no continente europeu foram, de facto, o resultado prático de teorias que não foram inventadas, mas proclamadas com voz forte, em 1848.

Ao mesmo tempo, a experiência do período que vai de 1848 a 1864 provou, para lá de qualquer dúvida, que, embora excelente quanto ao seu princípio e por mais útil que seja na prática, o trabalho cooperativo, se for mantido dentro do estreito círculo privado dos esforços esporádicos dos trabalhadores, nunca conseguirá deter o crescimento em progressão geométrica dos monopólios, libertar as massas, nem sequer aligeirar as suas misérias de modo perceptível. É talvez por esta mesma razão que  fidalgos aparentemente bem intencionados, palavrosos filantropos da classe média e até mesmo economistas políticos profissionais se converteram todos, ao mesmo tempo, em enjoativos bajuladores do mesmo sistema de trabalho cooperativo que tentaram eliminar quando ainda estava em embrião, ridicularizando-o como uma utopia de sonhadores, ou estigmatizando-o como um sacrilégio de socialistas. Para salvar as massas laboriosas, o sistema cooperativo deve ser desenvolvido em dimensões nacionais e deve, por conseguinte, ser promovido por meios nacionais» (Karl Marx, Alocução Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores, Outubro de 1864 [minha tradução])19.

Creio que este trecho mostra bem o modo como Karl Marx (1818-1883) se esforçou por generalizar, com a máxima clareza e brevidade, o modo como a classe trabalhadora do seu tempo mostrou ser capaz de superar, por obras mais do que por argumentos, a máxima de David Hume relativamente à relação entre governantes e governados. Noutro ponto da mesma alocução, Marx acrescenta:

Um elemento de êxito eles [os trabalhadores] possuem — números. Mas os números só pesam na balança se estiverem unidos por combinação [entenda-se: por combinação organizada de esforços e projectos] e se forem conduzidos pelo conhecimento.

A mensagem, como se constata, é muito semelhante àquela que Hume procurou transmitir, noutro contexto, com outro propósito e por outras palavras, no trecho supracitado.

É forçoso reconhecer, porém, que esta mensagem foi quase completamente obliterada. A experiência riquíssima do período que vai de 1876 (data da dissolução da Associação Internacional dos Trabalhadores de boa memória), até aos nossos dias (2019), provou, para lá de qualquer dúvida, mas quase sempre pela negativa, que os “números” que atestam a força dos trabalhadores assalariados raramente ou nunca estiveram unidos por uma combinação conduzida pelo conhecimento do que é necessário fazer para desenvolver o sistema cooperativo em dimensões nacionais e internacionais, por meios nacionais e internacionais.

Ora, sem esse conhecimento, sem a enunciação, a mais ampla discussão e a assimilação dos factos e argumentos em que ele assenta, não apenas por uma minoria esclarecida mas por centenas de milhões de trabalhadores assalariados, a emancipação económica dos trabalhadores assalariados — ou o socialismo, se também lhe quisermos chamar assim — não é possível, porque só poderá ter êxito se for obra dos próprios trabalhadores.

Posso agora formular, sem correr o risco de ser mal compreendido, as duas questões de que se ocupará exclusivamente este blogue:

1ª) Que arquitectura institucional deve ter uma sociedade composta de empresas cooperativas e de outras formas associativas de produtores e consumidores livres e iguais, integralmente democrática, tecnologicamente avançada, ecologicamente sustentável,  e, por conseguinte, uma sociedade composta de cidadãos autónomos, sem classes socioeconómicas e sem Estado (entenda-se, sem forças repressivas especiais, separadas do colectivo dos cidadãos) ?

2ª) Que medidas concretas podemos ajudar a pôr em prática nos próximos cinco, dez, quinze, vinte anos ‒ nós, cidadãos constituintes (um pleonasmo), indómitos (outro pleonasmo) ‒ para que os muitos (refiro-me em especial aos que são trabalhadores assalariados e aos que são jovens estudantes) possam auto-instituir (se o quiserem fazer) essa alternativa à sociedade capitalista que lhes come as papas na cabeça?

A segunda pergunta é muito mais difícil do que a primeira. Mas sem uma resposta cabal à primeira, não é possível dar uma resposta com pés e cabeça à segunda.

Entender-se-á concretamente o significado destas perguntas lendo os artigos deste blogue — os que fazem parte deste número inaugural e também, espero, os que vieram a fazer parte dos números a publicar ulteriormente.  Os seus autores têm nacionalidades diferentes, experiências diversas e não estão todos de acordo, em todos os aspectos, sobre a resposta a dar a estas perguntas. Há entre eles diferenças notórias. Mas todos convergem na necessidade urgente de lhes dar uma resposta tão robusta e consistente quanto possível, submetendo-a ao escrutínio e ao debate públicos.

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[*] The author of this introduction is the owner of this blog [o autor desta introdução é o dono deste blogue], José Manuel Catarino Soares                                                                                               

Lisboa, 25 de Abril de 2019

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 NOTAS

  1. É interessante notar que este modo de produção não teve, durante quase um século, um nome próprio que o identificasse com clareza. O responsável por esse acto de baptismo — concomitante da análise minuciosa e pioneira a que procedeu desse modo de produção na sua obra O Capital — foi Karl Marx. Quanto ao acto de baptismo propriamente dito, teve lugar no prefácio à primeira edição (1867), em alemão, do primeiro volume de O Capital. Aí, Marx escreveu: «Neste trabalho, proponho-me examinar o modo capitalista de produção e as condições de produção e de troca que correspondem a esse modo. Até ao presente momento, o seu terreno clássico tem sido a Inglaterra. Essa é a razão pela qual a Inglaterra é usada como a ilustração principal no desenvolvimento da minhas ideias téoricas.» (minha tradução, a partir da tradução inglesa (1887) de Das Kapital feita por Samuel Moore e Edward Aveling e editada por Friedrich Engels).
  2. Sabemos isso graças a um estudo recente de Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Steffano Battiston, “The Network of Global Corporate Control”, PLoS ONE, Volume 6, nº 10 (October 21, 2011), https://doi. org/10.1371/journal.pone.0025995. Os autores partem dos 37 milhões de firmas e investidores que constam da base de dados Orbis 2007, publicada pela OCDE, assim como de uma lista de 43.060 firmas transnacionais (que eu apelidarei, para abreviar, de “FTN”) extraída pelos autores dessa base de dados. Com base nessas informações, o seu estudo concentra-se na construção e análise do gráfico de relações de controlo entre firmas (que firmas detêm as acções de outras) tendo em conta as receitas de cada firma, de modo a detectar a estrutura do poder económico.
  3. Na gíria dos correctores de bolsa, as “fichas azuis” (Ingl. “blue chips”) são as firmas (ou as acções de firmas) bem conhecidas, bem estabelecidas e bem capitalizadas, razão pela qual essas firmas e as acções que emitem são consideradas investimentos seguros. O termo “ficha azul”, empregado nesta acepção, vem do póquer, jogo em que as fichas azuis estão entre as mais valiosas.
  4. Este gráfico, tal como o anterior, foi extraído do artigo de Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Steffano Battiston, “The Network of Global Corporate Control” (cf. nota 2, supra). Os nós [pequenas esferas vermelhas] do gráfico representam firmas, e dois nós determinados, A e B, são conectados por um arco que vai de A até B, se A puder controlar B por ter mais de 50% de suas ações. Os autores analisam “apenas” o gráfico de firmas controladas por uma FTN ou que controlam uma FTN. Como se verifica, são numerosos os casos de controlo recíproco entre FTNs.
  5. Cf. Peter Philips, Giants: The Global Power Elite (New York: Seven Stories Press, 2018, p.37).
  6. Ao câmbio de hoje (10-04-2019) 1 dólar americano equivale a 0,88 euros.
  7. Cf. Peter Philipps, op.cit., p.49.
  8. Ver Facundo Alvaredo et al., The World Inequality Report 2018 (Paris: World Inequality Lab, 2017). http://wir2018.widworld. O artigo Rumo à Democracia Integral, publicado neste blogue, refere alguns dos números deste e doutros relatórios que ilustram a brutal desigualdade de riqueza (rendimentos e património) entre indivíduos (ricos e pobres) dentro dos países e à escala mundial.
  9. O conceito e a expressão são de Edward Bernays, “The engineering of Consent” (1947), Annals of the American Academy of Political and Social Science, 250 (1): 113–120.
  10. “Billionnaires, the richest people in the world,” 5 de Março de 2019. Forbes.https://www.forbes.com/ billionaires/#3626f764251c.
  11. Sobre as instituições transnacionais controladas pela “elite” da camada (C), ver Handbook of Transnational Governance : Institutions & Innovations, eds. Thomas Hale & David Held (Cambridge: UK e Malden, MA: Polity Press, 2011). Sobre a “elite” da camada (E), ver P.W. Singer, Corporate warriors : the Rise of the Privatized Military Industry (New Delhi: Manas Publication, 2005); Robert Young Pelton, Licensed to Kill: Hired Guns in the War on Terror (New York: Crown publishers, 2006); Jeremy Scalhill, Blackwater : The rise of the World’s Most Powerful Mercenary Army (New York: Nation Books, 2007); Steve Fainaru, Big Boy Rules:America’s Mercenaries Fighting in Irak (Boston: Da Capo Press, 2008); Shawn Engbretch, America’s Covert Warriors: Inside the World of Private Military Contractors ( Dulles, Va: Potomack Books, 2011);  Luke McKenna e Robert Johnson, “A Look  at the World’s Most Powerful Mercenary Armies,” (Business Insider, 26 de Fevereiro de 2012 (http://www.businessinsider.com/bi-mercenary-armies.2012-2); “The Largest Company You’ve Never heard of: G4S and the London Olympics   (International Business  Times, 5 de Agosto de 2012, http://www.ibtimes.com/largest-company-youve-neverheard-g4s-london-olympics-739232); Christian Davenport, “Companies Can Spend Millions on Security Measures to Keep Executives Safe” (Washington Post, 6 de Junho de 2014, http://www. washingtonpost/business/economy/companies-can-spend-millions-on-security-measures-to-keep-executives-safe/2014/06/5f500350-e802-11e3-afc6-a1dd9407abcf_story.html; John Whitehead, “Private  Police: Mercenaries for The American Police State” (OpEd News, 4 de Março de 2015, http://www.opednews.com/articles/Private-Police-Mercenarie-by-John-Whitehead-Police-Abuse-of-Power_Police Brutality_Police-Coverup_Police-State-150304-539.html). Sobre a “elite” da camada (D), ver Edward S. Herman e Noam Chomsky, Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media  (New York: Pantheon Books, 1988); Noam Chomsky, Media Control. 2nd Edition (New York: Seven Stories Press. Open Media Series, 2002); David I. Robb, Operation Holywood: How the Pentagon Shapes and Censors the Movies (New York: Prometheus Books, 2004); Ben H. Bagdikian, The New Media Monopoly (Boston: Beacon Press, 2014); Lee Artz, Global Entertainement Media: A Critical Introduction (Chichester, UK: John Wiley and Sons, 2015); Tom Secker e Mathew Alford, “Documents Expose How Holywood Promotes War on Behalf of the Pentagon, CIA and NSA” (4 de Julho de 2017, INSURGE intelligence, https://medium.com/insurge-intelligence/exxclusive-documents-expose-direct-us-military-intelligence-influence-on-1-800-movies-and-tv-shows-36433107c307) ; Peter Philips, op.cit., cap. 6.
  12. Peter Philips, op. cit., cap.6.
  13. Mais exactamente 389, em 2017. Cf. Peter Philipps, op.cit., p.29.
  14. Ver David Rothkopf, Superclass: The Global Power Elite and the World They Are Making. (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2009).
  15.  “On the First Principles of Government”, David Hume (1777), Essays — Moral, Political, and Literary. (Revised Edition. Indianapolis: Liberty Fund, 1985, 1987). Minha tradução. Georges Orwell (1903-1950) desenvolveu o argumento de Hume num aspecto importante que se tornou evidente no século XX (embora, aparentemente, não o tivesse feito com essa intenção, pois nunca se refere a Hume). Fê-lo no seu prefácio a Animal Farm [A Quinta dos Animais], intitulado  The  Freedom of the Press [A Liberdade de Imprensa], que os editores da 1ª edição de Animal Farm (1945) decidiram suprimir e que só foi descoberto e publicado postumamente, muitos anos depois. Nesse texto, Orwell identifica um dos mais poderosos aliados ‒ e também o mais discreto ‒ da dominação da “superclasse”: a cobardia intelectual de muitos editores de livros e de muitos responsáveis pelos conteúdos dos orgãos de comunicação social que os leva a censurarem e autocensurarem as opiniões e os factos que desagradam aos poderes estabelecidos, assim como o servilismo de muitos escritores, jornalistas e intelectuais públicos que apoiam tácita ou explicitamente tais atitudes e comportamentos
  16. Ver James Bamford, “The man who Sold the War” (Rolling Stone, Novembro de 2005), republicado por Common  Dreams em 18 de Novembro de 2005, http//:commondreams.org/headlines05/1118-10.htm  ; Ray Eldon Hiebert, “Public Relations and Propaganda in Framing the Irak War : A Preliminary Review,”  em Propaganda and the Gwot Year 3 ‒ 2004 (mainly Iraq), Phil Taylor’s Papers, http://media.leeds.ac.uk/ papers/vp015cd9.html ; David L. Altheid e Jenniffer N. Grimes, “War programming The Propaganda Project and the Iraki War,” Sociological Quarterly 46, Nº4 (autumn 2005), pp.617‒43; John Pilger, “War by Media and the Triumph of Propaganda”, 5 de Dezembro de 2014, http://johnpilger.com/articles/war-by-media-and-the-triumph-of-propaganda.
  17. A classe dos trabalhadores assalariados (também chamados “trabalhadores por conta de outrem” ou “proletários”) nunca foi tão numerosa como nos dias de hoje. Existiam 2.320 milhões de trabalhadores assalariados no mundo inteiro em 1990. Em 2018 eram 3.457 milhões (cf. The World Bank. https://data.worldbank.org/indicator/SL.TLF.TOTL.INData. April 2019) 
  18. Uma das lições mais importantes de O Capital de Marx é a explicação do modo como a exploração capitalista do trabalho assalariado se apresenta aos olhos dos trabalhadores assalariados (e dos próprios capitalistas) como o resultado natural e directo de relações de igualdade e liberdade entre compradores e vendedores da força de trabalho no “mercado livre.” Os capitalistas, detentores dos meios colectivos de produção, não precisam de utilizar a força nem de ludibriar os trabalhadores para que estes lhes aluguem a sua força de trabalho em troca de um salário. É a necessidade de garantirem o seu sustento diário e o das suas famílias, conjugada com a ausência de alternativas, que os levam muito “naturalmente” a fazê-lo, sob pena de morrerem à míngua.
  19. Inaugural Address and Provisional Rules of the International Working Men’s Association, impresso como panfleto, em Outubro de 1867, em Londres. Documento disponível em https://www.marxists.org/ archive/marx/works/1864/10/27.htm.

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